Juros altos, pressão sobre o consumo, cenário fiscal, reforma tributária, geopolítica e inteligência artificial estão transformando o ambiente de negócios. Mais do que prever o futuro, o desafio é compreender esses movimentos para tomar decisões com mais critério.
Durante dois dias na Money Week 2026, a sócia e fundadora do Instituto Mudita, Luana Pace, acompanhou discussões sobre economia, investimentos, política, mercado imobiliário, inteligência artificial, infraestrutura, internacionalização e geopolítica. Os temas eram diferentes, assim como as perspectivas dos palestrantes, mas alguns pontos começaram a se repetir e chamaram a atenção justamente por convergirem para uma mesma questão: o ambiente em que as empresas brasileiras tomam decisões está ficando mais complexo.
O tom de boa parte das discussões foi de alerta:
→ Juros ainda elevados
→ Situação fiscal preocupante
→ Famílias com uma parcela significativa da renda comprometida
→ Mudanças tributárias importantes
→ Ambiente internacional mais instável
→ Influência da Inteligência Artificial nos negócios
Ao mesmo tempo, o país possui ativos que ganharam importância estratégica no mundo atual, como alimentos, energia, minerais, terras raras, petróleo e um grande mercado consumidor.
Por isso, talvez a discussão mais útil para quem está à frente de uma empresa não seja se devemos olhar para o Brasil com otimismo ou pessimismo. A questão é entender quais movimentos precisam entrar no radar do empreendedor para que ele consiga tomar decisões mais consistentes em um cenário que pode continuar mudando rapidamente.
O consumidor está mais pressionado e o dinheiro continua caro
Os dados mostram uma economia que ainda cresce, mas que vem perdendo velocidade. O PIB brasileiro avançou 2,3% em 2025 e cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior. No acumulado de quatro trimestres, porém, o crescimento desacelerou para 2%. Ao mesmo tempo, o custo do dinheiro continua elevado. Em agosto, a Selic foi reduzida para 14% ao ano, um patamar que ainda pesa sobre crédito, financiamento, capital de giro e decisões de investimento.
Esse cenário se torna ainda mais relevante quando olhamos para as famílias. Em março de 2026, o endividamento correspondia a 49,8% da renda acumulada em doze meses, enquanto 29,3% da renda estava comprometida com pagamentos de operações de crédito, segundo o Banco Central. Para o empreendedor, esses números precisam ser traduzidos em comportamento: um consumidor financeiramente pressionado tende a adiar compras, comparar mais preços, trocar marcas, reduzir frequência ou priorizar gastos considerados essenciais. O mercado continua existindo, mas a forma como as pessoas decidem consumir muda.
O mercado imobiliário ilustra bem essa segmentação. No primeiro trimestre de 2026, o Minha Casa Minha Vida respondeu por 49% das vendas de imóveis residenciais novos nas cidades pesquisadas pela CBIC, mostrando a relevância do apoio público para uma parcela importante do mercado. Na outra ponta, consumidores de maior patrimônio tendem a depender menos do financiamento tradicional e mantêm maior capacidade para adquirir imóveis de alto padrão. Entre esses dois grupos está uma parcela significativa da população que possui renda, mas depende do crédito para decisões de maior valor. Com juros elevados e maior comprometimento da renda, a capacidade de compra desse público fica mais pressionada.
Para empresas de diferentes setores, isso reforça a necessidade de abandonar a ideia de um “consumidor médio” e entender de forma muito mais precisa quem é o cliente, quanto de sua renda está comprometido e como o contexto econômico pode modificar suas escolhas.
A situação fiscal chega até o caixa das empresas
A preocupação com as contas públicas apareceu repetidamente durante a Money Week e não deve ser tratada apenas como uma discussão política. Em junho de 2026, a dívida bruta do governo geral chegou a 81,9% do PIB, aproximadamente R$ 10,8 trilhões, segundo o Banco Central.
Esse patamar demonstra uma fragilidade fiscal relevante que precisa ser considerada. Juros elevados e dívida crescente pressionam as contas públicas e contribuem para um ambiente em que o capital permanece caro, afetando expectativas, câmbio, financiamento e decisões de investimento.
Para o empreendedor, os efeitos aparecem dentro da empresa. Quando o capital fica caro por um período prolongado, negócios excessivamente alavancados se tornam mais vulneráveis, investimentos precisam gerar retornos maiores para justificar o risco e decisões equivocadas demoram mais para ser absorvidas.
Uma empresa com margem reduzida e nível elevado de endividamento fica particularmente exposta, porque qualquer erro de investimento consome mais tempo e recursos para ser corrigido, enquanto estruturas pouco produtivas passam a comprometer uma parcela maior do resultado. Nesse contexto, aumentar faturamento sem ampliar produtividade, margem e capacidade de gestão pode fazer a empresa parecer maior sem necessariamente torná-la mais forte.
A reforma tributária torna a gestão ainda mais estratégica
Outro tema que precisa entrar definitivamente no radar das empresas é a reforma tributária. A carga tributária bruta brasileira chegou a 32,4% do PIB em 2025, segundo o Tesouro Nacional, mas a questão para o empreendedor vai além do volume de impostos pagos.
A transformação do sistema tributário pode alterar formação de preços, margens, fluxo de caixa, aproveitamento de créditos, contratos, relações com fornecedores e até a viabilidade de determinadas operações. Por isso, tratar a reforma como uma questão exclusivamente fiscal ou deixar toda a responsabilidade nas mãos do contador pode ser insuficiente.
O impacto precisa ser analisado de maneira integrada ao negócio. Uma mudança tributária pode modificar preço, que altera competitividade, que afeta vendas, margem e caixa. Empresas mais estruturadas tendem a perceber essas relações com antecedência, enquanto organizações que operam predominantemente pela intuição podem descobrir os efeitos somente depois que eles já chegaram ao resultado.
Essa é uma das razões pelas quais o contexto atual exige um nível de gestão mais elevado: informação financeira, planejamento, indicadores e integração entre áreas deixam de ser recursos importantes apenas para empresas grandes e passam a ser necessários também para organizações que estão atravessando uma fase de crescimento e aumento de complexidade.
O risco geopolítico deixou de ser um assunto distante
O segundo dia da Money Week trouxe com força um tema que ainda parece distante para muitos pequenos e médios empresários: geopolítica. Durante décadas, grande parte da economia mundial esteve organizada sob a lógica da globalização e da busca por eficiência. Hoje, decisões econômicas estão cada vez mais condicionadas por segurança, tecnologia, energia, alimentos, minerais e autonomia estratégica.
Guerras, disputas comerciais e rivalidades entre grandes potências podem alterar preços, câmbio, disponibilidade de equipamentos, componentes e matérias-primas, mesmo para uma empresa que nunca tenha realizado uma importação diretamente. A relação do Brasil com a China é um exemplo dessa exposição. Entre janeiro e julho de 2026, o país asiático respondeu por 31,6% das exportações brasileiras, consolidando-se como nosso principal destino comercial.
Entretanto, a dependência pode existir de maneira indireta. Uma empresa pode comprar de um fornecedor brasileiro que utiliza máquinas, peças ou matérias-primas chinesas e descobrir sua exposição apenas quando ocorre uma interrupção na cadeia. Isso amplia o conceito de gestão de risco: além de clientes, concorrentes e fluxo de caixa, empresas precisam compreender de onde vêm seus principais insumos, onde estão suas maiores concentrações e quais acontecimentos externos poderiam interromper ou encarecer a operação. Em um mundo mais instável, planejamento estratégico precisa deixar de depender de uma única previsão de futuro e trabalhar com diferentes cenários.
O Brasil tem problemas internos, mas possui aquilo que o mundo procura
Um dos contrastes mais interessantes das discussões foi perceber que o aumento do risco geopolítico também pode tornar o Brasil mais relevante. Alimentos, energia, petróleo, minerais, terras raras e recursos naturais passaram a ocupar posição ainda mais estratégica na economia mundial, e o Brasil possui vários desses ativos em abundância.
Na energia elétrica, por exemplo, 86,8% da oferta interna brasileira veio de fontes renováveis em 2025, segundo a Empresa de Pesquisa Energética. A combinação de recursos energéticos, capacidade agrícola, território e reservas minerais coloca o país em uma posição potencialmente privilegiada em um mundo preocupado com segurança energética, digitalização e reorganização das cadeias globais.
O problema está justamente na transformação desse potencial em competitividade. Complexidade tributária, custo de capital, infraestrutura, burocracia, insegurança e baixa velocidade de execução podem fazer com que um país tenha aquilo que o mercado mundial procura e, ainda assim, não consiga capturar todo o valor dessa oportunidade. Essa reflexão vale também para empresas: estar em um mercado promissor não substitui gestão. Uma organização pode atuar em um setor excelente e, ainda assim, perder espaço porque opera lentamente, possui custos elevados, centraliza decisões ou não consegue transformar oportunidade em execução.
Diversificar passou a significar mais do que investir fora
Outro movimento discutido durante o evento foi o aumento do interesse de empresários e investidores brasileiros por mercados internacionais. A discussão já não se restringe à compra de ações de grandes companhias globais. Passa também por proteção patrimonial, acesso a outras fontes de capital, novos mercados, diversificação de receitas e até internacionalização de empresas brasileiras.
Isso não significa que todo empreendedor deva abrir uma empresa nos Estados Unidos ou direcionar seus investimentos para fora do país. O aprendizado relevante está na lógica da diversificação. Uma empresa excessivamente dependente de um único cliente, fornecedor, mercado, região ou fonte de financiamento carrega um risco de concentração que se torna ainda mais relevante em períodos instáveis.
Para algumas organizações, diversificar pode significar vender para outros estados; para outras, pode significar desenvolver novos fornecedores, acessar mercados internacionais ou reduzir a dependência de um grande cliente. A decisão precisa nascer da estratégia, não de uma tendência.
A inteligência artificial acelera as oportunidades e os riscos
Se houve um tema capaz de atravessar praticamente todas as discussões sobre o futuro das empresas, foi a inteligência artificial. A adoção avançou rapidamente, mas existe uma diferença importante entre utilizar uma ferramenta e transformar uma organização. Pesquisa da PwC mostrou que apenas 9% das empresas brasileiras analisadas redesenham seus fluxos de trabalho para incorporar IA, enquanto entre organizações globais consideradas líderes esse percentual chega a 56%.
Essa diferença é fundamental. Colocar inteligência artificial sobre um processo ruim pode simplesmente fazer com que a empresa execute mais rapidamente aquilo que já fazia mal. O verdadeiro ganho aparece quando a tecnologia leva a organização a questionar como o trabalho é realizado, quais etapas continuam necessárias, onde decisões podem ser automatizadas e onde as pessoas realmente agregam valor.
Existe também uma pressão crescente para “não ficar para trás”, e esse medo pode levar empresas a investir sem clareza sobre o problema que desejam resolver. O desafio está em evitar os dois extremos: ignorar uma tecnologia capaz de alterar produtividade e competitividade ou adotá-la simplesmente porque todos parecem estar fazendo o mesmo.
E há uma dimensão que não pode ser esquecida: a cultura. Nenhuma transformação tecnológica acontece de forma consistente se as pessoas não estão preparadas para ela. Quando funcionários temem perder espaço, lideranças não compreendem a mudança ou a cultura pune experimentação e erros, a adoção tende a se tornar superficial. Tecnologia, portanto, precisa caminhar junto com estratégia, processos, pessoas, liderança e cultura.
Saiba mais: IA nas empresas: por que a tecnologia não avança sem mudança de cultura? – Podcast Cultura Empresarial em Movimento
O cenário exige menos previsão e mais capacidade de adaptação
Depois de dois dias ouvindo economistas, investidores, empresários e especialistas, o principal aprendizado que levo não é uma previsão sobre o que acontecerá com o Brasil. O cenário econômico pode mudar, as eleições podem produzir novos direcionamentos, os juros podem subir ou cair, conflitos internacionais podem se intensificar e tecnologias podem avançar mais rapidamente do que imaginamos. O empreendedor não controla nenhuma dessas variáveis. O que ele pode controlar é a capacidade de sua empresa de responder a elas.
Isso significa compreender quanto da receita depende de consumidores financeiramente pressionados, avaliar a exposição a juros e endividamento, antecipar os impactos da reforma tributária, revisar concentrações em clientes e fornecedores, acompanhar mudanças geopolíticas e entender como a inteligência artificial pode efetivamente melhorar produtividade e processos.
Para empresas em fase de crescimento, essa reflexão é ainda mais importante, porque o aumento de tamanho normalmente traz também aumento de complexidade. Talvez, portanto, uma das perguntas mais relevantes para quem está à frente de uma empresa neste momento não seja apenas “quanto podemos crescer?”, mas “o quanto nossa estrutura está preparada para sustentar as decisões que teremos de tomar em um ambiente que continuará mudando?”
O Brasil continua oferecendo oportunidades importantes, mas o contexto econômico, político, tecnológico e geopolítico está exigindo empresas com mais clareza, melhor gestão e maior capacidade de adaptação. Diante de tudo o que ouvimos na Money Week 2026, talvez esse seja o ponto que mais merece a atenção do empreendedor.
O consumidor está mais pressionado e o dinheiro continua caro
O risco geopolítico deixou de ser um assunto distante
A inteligência artificial acelera as oportunidades e os riscos











